Adio o momento de escrever

Adio o momento de escrever. Escrevo dentro de mim (pensamentos às vezes escrevem). As palavras no papel precisam esperar essa coisa qualquer germinar primeiro aqui dentro, minha terra úmida de palavras. A palavra é uma pedra. É duro chegar ao âmago do sentido, entender o que ela precisa dizer, criar. Não é estranho que aContinuar lendo “Adio o momento de escrever”

Voltei a pensar que quero morrer

Balthus, Coffee cup Todo dia sinto uma corrente elétrica de ansiedade percorre as articulações. Todo dia a respiração é difícil e a angústia torna insuportável o sustentar do meu corpo. Corpo que é poeira sustentada por panos, indo e vindo dentro do apartamento. Vou me encolhendo como num casulo de lençóis e travesseiros. Minha camaContinuar lendo “Voltei a pensar que quero morrer”

O tempo é Agora

O tempo é Agora. Instante que se expande em todas as direções. A xícara que se parte e não encontra retorno. Tempo é o Já. O passado é memória, criação nossa. O futuro, Hawkings me disse que existe, mas não sei explicar. Simplesmente é. Não me inclino sobre o que vem. Tudo é imaginação. O queContinuar lendo “O tempo é Agora”

Você, sem nome

Eles não se conhecem. Dentro da casa, não se conhecem. Quando ela entra, a sala está escura. É dia, mas as cortinas estão cerradas. De pé, ele está encostado na parede mais distante da porta. Nada dizem. Ela se senta na cadeira. Está cansada da viagem longa. Tem sede, mas suas pernas pesam. Teria deContinuar lendo “Você, sem nome”

Como, pai, nasce um poeta?

Como, pai, nasce um poeta? Meu pai foi quem primeiro me ensinou a amar a poesia e a ter os poetas ao redor dos ouvidos. Queria infinitas as histórias murmuradas na boca da infância (escrevi antes de escrever). Achava tão sábios os poetas, como podiam de palavras pequeninas lavrar sentimentos grandes. Mas eu me rebeleiContinuar lendo “Como, pai, nasce um poeta?”

Verão de 21

Para Marguerite te encontro na praia no meio-de-qualquer-coisa nosso sempre encontro na cidade sem tempo lugar do mar você com seu martini (é sempre verão tem sempre martini e sempre silêncio) tento atravessar a areia, mas o vento e a chuva arrastam meu corpo para longe gaivota que luta para voar num filme rodado deContinuar lendo Verão de 21

COLAGISTA DA TRAGÉDIA

Eu imaginava a vida assim, ligeiramente diferente. Não feliz. Ainda triste, mas uma tristeza outra, dentro da minha escolha de sofrer. Vida alegre nunca fez sentido para mim. Vida alegre era coisa impossível, fora mesmo da imaginação. E o que você imaginava. Imaginava o amor. Um amor sofrido, é claro. Mas é melhor que oContinuar lendo “COLAGISTA DA TRAGÉDIA”

JOGO AS PALAVRAS PELA JANELA PARA NÃO MORRER

Aproveito minha solidão para escrever             E tentar não morrer             E tentar não morrer             Prendo a respiração para não morrer             Não morrer             Não morrer             Aproveito minha solidão para escrever. Uma carta, que é um e-mail, me diz no assunto: o suicídio é a única morte não prematura. Todas as outrasContinuar lendo “JOGO AS PALAVRAS PELA JANELA PARA NÃO MORRER”

Ser o que se é

Exercício difícil: dizer o que se é. O que sou? Palavra enorme. O que cabe dentro de uma biografia? Não sei. Todas as definições me assustam. Só sei que escrevo. É assim: sempre escrevi. Escrevi antes mesmo de saber escrever. Inventava histórias na boca da infância. Narrativas e personagens infindáveis que, com meu crescimento, foramContinuar lendo “Ser o que se é”

Casulo

Mais um poeta morto, Laura. Mais um corpo suspenso. As palavras interrompidas na traqueia. Um tiro na cabeça, foi assim. Vazio, vazio. Morrer é tão simples. Morrer é tão fácil. Existir é tentar andar com grilhões de cem quilos nos pés. Existir é tão duro. Me encolho como crisálida nos lençóis, pronta para me tornarContinuar lendo “Casulo”