Ao sair da Rússia

É como se agora, depois de ter vivido a Rússia, pudéssemos quase compartilhar de uma mesma nostalgia – não a mesma Rússia, não a mesma nostalgia. No inverno, presenciei um verão nabokoviano em Rojdestveno, quando as folhas marrons se camuflaram em borboletas a voar no campo seco e com resquícios de neve. Na casa do tio Ruka, pude ver o pequeno Valodia acordar e espiar pela janela: sol significava borboletas. Rojdestveno é Vyra e é Ardis, onde Ada corre com pernas de gazela pálida, olhos e cabelos escuros. Rastros para o jovem Van. Nessa tríplice nabokoviana (e não poderia ser outra), o Tempo e a Realidade se contraem e eu, Valódia e suas Criações percorremos, com os mesmos pés, um campo no inverno russo. Olho pela janela. É a nostalgia nos olhos e nos pés. Vejo com os pés a Rússia de Nabokov. Finalmente compreendo suas caminhadas por borboletas na idílica Montreux. É em Rojdestveno que nos entregam um ingresso amarelado de tão antigo. É no endereço em St. Petersburgo que choro compulsivamente sem que ninguém se vire para mim. Os russos respeitam nossas dores incompreensíveis, nossas bebedeiras, nossas descomposturas. Nunca tive medo de ser o que eu precisava ser na Rússia. Ninguém me deixou desconfortável com um olhar de reprovação. Foi difícil a volta ao ocidente e aos olhares. Sobre Montreux não posso dizer muito, porque estive sozinha naquele país. Não havia ninguém para ver nem ninguém que me visse. E isso também foi essencial para que eu pudesse sentir e compreender. Lá fui presenteada pelo primeiro rastro de Alice, que na Rússia você batizou de Anya. Sim, você precisava ter batizado sua própria Alice russa, e sua imagem tinha de aparecer onde você aparecia. Eu capturava pistas que você soprava para mim e colocava na nossa caixinha de entomologia.

Sei que, no fundo, nunca compreenderei nada. Mas, é nessa busca de autor-leitor que crio também minha própria Zembla, meu próprio mundo inventado. A beleza de tudo está em também criar, me ligar e buscar a mim mesma no amor impossível. Confiar apenas na imaginação. Jure, jure para mim, confiar na fantasia apenas, VN pede. Até a escuridão cintila com o brilho da beleza.

Na literatura, encontrei companhia para a dor de existir. Não busco respostas, mas quem também tenha perguntas. É o que buscamos no Outro, que nos ajuda no encontro do Eu. Você sabe disso. É um encontro feito apenas de questionamentos. Um diálogo inesgotável.

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