COLAGISTA DA TRAGÉDIA

Eu imaginava a vida assim, ligeiramente diferente. Não feliz. Ainda triste, mas uma tristeza outra, dentro da minha escolha de sofrer. Vida alegre nunca fez sentido para mim. Vida alegre era coisa impossível, fora mesmo da imaginação.

E o que você imaginava.

Imaginava o amor. Um amor sofrido, é claro. Mas é melhor que o não-amor.

A ausência te incomoda.

Sim. A indiferença. O silêncio. Na minha imaginação é o choro, a dor que grita grito agudo. Tudo é muito sentido, ferida aberta a que se ata os pontos sem anestesia.

(Silêncio).

Você acha que sou louca.

Não dig

Você acha. Tudo bem.

Você precisa que eu te ache louca.

Que pergunta bem de analista. Eu já fui a muitos, conheço todos os truques. Todos. Minha vida é um quarto entulhado de inutilidades pendendo sobre a solidão. É uma solidão, uma esterilidade. Não acontece nada. E aqui dentro não há muita coisa também. Vida tediosa. Nenhum trauminha que valha a pena. Então eu invento. Veja bem. Sou viciada em inventar tragédia.

A tragédia te atrai.

A tragédia é tudo. A vida é feita de desgraças. Sua profissão, por exemplo. Se não fossem as desgraças, iríamos viver numa recessão gigante. Não ia ter profissão que sobrevivesse. Advogado, carcereiro, escritor, florista, coveiro, médico, psicólogo, o que se faria com essa gente. Me dá pânico só de imaginar. O que ia passar no jornal. Não, sem a tragédia o ser humano acaba. Morto de inanição. O cérebro pifa.

Então, para você, o que seria a felicidade.

Não sei. Uma besteira. Happiness. Счастье. A felicidade é o Absurdo. A grande pausa do mundo oco. Pff. Deus é um baita escritor. Inventa a cada dia a tragédia humana para se distrair. Imagine, ele e sua criação morreriam de tédio. Por isso, sou uma colecionadora de desgraças.

(Silêncio).

Tenho um caderno de colagens. Abro o jornal, recorto toda notícia ruim que encontro e colo. Já é meu décimo sexto caderno, veja só. Rararra.

(Ajeita os óculos). E você quer me mostrar.

Oh, sim. (Olhos brilham).

Como veio a ideia do caderno.

Só veio. Sou uma colagista da tristeza. Bonito nome, não.

(Silêncio).

Conheço esse olhar. É difícil encontrar alguém que compreenda a grandiosidade do meu ofício. Você sabe qu…

Desculpe, mas nosso tempo acabou. Nos vemos na próxima semana.

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