Em busca de Vladimir Nabokov: Minha viagem nabokoviana pelo continente europeu

Montreux: A felicidade e a morte nos alpes suíços

Do lado esquerdo, Vera e Vladimir Nabokov em frente ao Montreux Palace Hotel; do lado direito, eu, em frente ao mesmo hotel.

Quando eu disse ao meu terapeuta que Vladimir Nabokov não era minha maior inspiração literária (pelo menos em estilo) e que, na verdade, eu discordava dele em muitos aspectos, ele me perguntou “então por que Nabokov?”. Não era a primeira nem a última vez que eu me veria diante dessa pergunta. Por quê? Apesar da minha hesitação inicial, eu sempre tento explicar, de uma maneira ou de outra. Mas, o que eu gostaria realmente de responder (e seria uma resposta nabokoviana) é: como explicar o amor?

Por três vezes nós nos encontramos no velho continente. Primeiro Montreux, onde Nabokov viveu seu mundo particular: um campo de borboletas entre os alpes suíços, um paraíso idílico sem Tempo. É em Montreux que ele escreve Fogo Pálido, Ada ou Ardor, Coisas Transparentes, Somos todos Arlequins e onde dá seu último suspiro sem finalizar Laura, livro íntimo e cru que, em uma brincadeira final com o leitor, ele nos diz que morrer é divertido. É em Montreux que Nabokov é ridiculamente feliz no amor, que inventa a realidade e o seu próprio mundo multicor, multilíngue e repleto de borboletas. Nabokov é múltiplo na língua que mistura o francês, o inglês e o russo; nas palavras, com suas próprias cores; nas plantas e borboletas dos alpes. É na Suíça que pode ficar mais perto do filho e da tranquilidade que demora a vir em sua vida. É em Montreux que Nabokov reinventa de maneira mais intensa a realidade, criando sua própria botânica e uma nova História. Acredite apenas na fantasia, ele diz trinta anos antes. Brinque! Invente o mundo! Invente a realidade!, ele insiste trinta anos depois.

Montreux. Suíça.

Caminhar por Montreux é como caminhar por um conto de fadas. A paisagem é de uma beleza estonteante. Não me surpreende que Vladimir tenha escolhido esse pequeno paraíso azul para viver. A Suíça me impressiona pela sua calma. Não há quase ninguém na rua e os turistas são dois ou três no máximo. É também um país muito caro, em que um cafezinho pode custar 3 francos. Eu cheguei à Suíça pelo Aeroporto de Genebra e passei a noite na cidade para, no dia seguinte, pegar o trem para Montreux. Genebra, no fim de tarde chuvoso, não me surpreendeu muito. Eu recebi um cartão no Hostel para andar gratuita e ilimitadamente de transporte público. Visitei alguns pontos turísticos principais e, já sem nada para fazer, caminhei pelas ruas silenciosas à noite. Em uma das ruas encontrei uma caixa de livros, dessas que a gente troca – pega um e deixa outro – e parei para olhá-los. Para minha surpresa, a maior parte deles estava escrito em russo. Outro, em inglês, era Alice Através do Espelho. Sorri. Nada podia ser mais nabokoviano. É Nabokov que traduz Alice para o russo. Íntimo da obra de Carroll, ambos frequentaram Cambridge e compartilhavam o gosto por xadrez, por códigos e por quebra-cabeças. Lolita tem muitas referências a Carroll, que Nabokov chamou de “o primeiro Humbert Humbert”. A imagem do espelho e dos duplos é muito presente na obra nabokoviana. Daí a minha surpresa e o sorriso que dei para mim mesma, já que eu estava naquele país para visitar Nabokov e Nabokov sorria para mim, através do espelho, pela obra de Lewis Carroll, numa rua vazia e escura de Genebra, em meio a livros escritos em russo. Após refletir por um tempo, eu resolvi fazer a devida troca e ficar com o livro para mim.

Como meu duplo invertido, nós começamos esse encontro de trás para frente: primeiro o lugar de sua morte; depois, o lugar em que nasceu e viveu a juventude.

Acordei cedo no dia seguinte, arrumei minha mochila, tomei o café da manhã do Hostel e fiz o checkout. A temperatura estava negativa quando saí para assistir ao nascer do sol, em frente ao lago Genebra, antes de ir para a estação de trem. Percebi que minha internet tinha parado de funcionar, mas não me desesperei. Já conhecia o caminho que precisava fazer. O trem partiu no horário em ponto e uma funcionária passou verificando nossos bilhetes. Eu não consigo deixar de lado minha ansiedade de fazer tudo certo nesses momentos: esse é o trem certo? Eu estou com o bilhete certo? Se eu não for metódica, penso, algo pode dar muito errado. Algo importante sobre os bilhetes: eles servem, impreterivelmente, para aquela viagem e trem específicos. Não é possível pegar qualquer trem que faça o mesmo trajeto, mas somente aquele.

Estava tudo certo com meu bilhete. Cada pessoa sentada em seu conjunto de bancos, dois e dois, um de frente para o outro. Ninguém se sentou de frente para ninguém. Eu percebi, mas era tarde demais, que estava do lado errado para observar o lago e os Alpes. Levantei-me à procura de um lugar do outro lado. Não havia mais conjuntos vazios, então me sentei de frente para uma mulher. Ela estava de costas para a paisagem e não parecia se importar muito. Eu observava e queria fotografar cada milímetro, fascinada pelo azul, pelo branco, pelo movimento do trem, pelo silêncio dos passageiros. Bom, da maioria deles. Minha vizinha de viagem começou a conversar com alguém pelo telefone. Ela era a única a falar e a falar, adivinhem, em português. Fiquei quieta, sem dar sinal de que a entendia. Aquela era, para mim, uma viagem introspectiva. Eu não tinha vontade ou necessidade de me comunicar com ninguém. Queria ter aquele momento para mim, por completo. O trem ia parando a cada estação e eu ia observando esse ritual para me preparar para a minha vez de descer.

Antes mesmo de sair do trem, meus olhos já estavam cheios d’água. A emoção antecipada de estar naquela cidade que sonhei tantas vezes para visitar os lugares que imaginei incontáveis vezes mais. O Montreux Palace Hotel fica a apenas uns dez minutos andando da estação. Na primeira ruela em que virei, vi um restaurante russo. Só me restava sorrir e chorar por antecipação. O Hotel é enorme e fica de frente para uma espécie de pátio ou gramado com diversas estátuas de figuras icônicas para o mundo da música. Em Montreux acontece, todo ano, um importante festival de Jazz. Entre essas grandes figuras para o mundo da música, no canto direito, lá estava, olhando para os Alpes Suíços, a figura sentada, de calças curtas e olhar perscrutador: Vladimir Vladimirovich Nabokov. Nunca observei com tanta liberdade e com tanto detalhamento uma estátua. Como eu já havia dito, a Suíça me surpreendeu por ser estranhamente vazia. Fiquei ali por um longo tempo, sozinha, observando e fotografando o Hotel, os Alpes e Vladimir Nabokov.

Estátua de Vladimir Nabokov

Não sei quanto tempo se passou até que eu decidisse andar pela beirada do lago, em direção ao cemitério. As águas cristalinas faziam fundo para as diversas estátuas que encontrei pelo caminho, além de outras obras de arte. Eu nunca me cansava de olhar para aquela paisagem que, de tão linda, soa irreal. Em algum momento, precisei me virar para me afastar do lago e penetrar efetivamente na cidade, com suas ruas íngremes (muito mais íngremes que as do Porto) até o cemitério. Não foi tão difícil quanto eu supus que seria e, com a ajuda de uma solícita suíça que falava inglês, eu cheguei ao lugar em que V. N. está enterrado. Minha maior dificuldade foi encontrar o túmulo, já que não parecia ter nenhum funcionário disponível. Havia um aviso na porta do cemitério explicando que bastava acessar um site para achá-lo. Mas, como eu estava sem internet, tudo tinha de ser feito do jeito mais difícil. Dei voltas e voltas, olhando para a paisagem belíssima, até encontrar o lugar em que estão sepultados Vladimir, Vera e Dmitri Nabokov.

Túmulo de Vladimir, Vera e Dmitri Nabokov.

Pela primeira vez, eu estava no lugar em que parecia mais adequado cair em pranto e foi isso que fiz. Chorei como quem chora uma saudade e uma felicidade antigas. Havia flores e alguém deixou uma borboleta de vidro vermelha em cima do túmulo. Era impossível não chorar e não sorrir. Meu corpo estremecia de um pranto solitário naquele pequeno paraíso onde V. N. foi feliz.

São Petersburgo: O único lar

Visitando o Museu Nabokov em São Petersburgo.

A Rússia era meu sonho maior e completo. A Rússia é não apenas Nabokov, mas tantas coisas para mim. A Rússia significa tanto. Mas a Rússia é também Nabokov. São Petersburgo, a cidade que eu mais queria conhecer em todo o mundo, veio depois de uma experiência única e fantástica em Moscou, cidade que me encantou de tantas maneiras.

Foi em São Petersburgo, na rua Bolshaya Morskaya, 47, que Vladimir Nabokov nasceu, em 1899. O mais de velho de 5 irmãos, é nesse endereço que Nabokov escreve seus primeiros poemas e vive o seu primeiro amor. É este, para o autor, o único lar. A nostalgia dessa casa rosada, rica e intelectual, de sua cidade e de seu país é o que o autor vai alimentar por toda a sua vida[1]. A impossibilidade de retorno, não apenas ao ambiente físico, mas ao passado, ao tempo-espaço daquele lar e daquela vida que lhe foram retirados. Ter de deixar a Rússia foi um grande rompimento em sua vida, cuja nostalgia marcaria sua Literatura, principalmente em seus primeiros livros, escritos na Alemanha. É a perda do lar, diria mais tarde, que fez com que ele se tornasse, em definitivo, um escritor. Diz que, não fosse sua saída da Rússia, teria trabalhado apenas como um obscuro lepidopterologista, isto é, um estudioso de borboletas, o que ele também foi.

Fotografias do pequeno Nabokov. Do lado direito, foto do autor com o pai.

Hoje, no mesmo endereço, funciona o museu-casa dedicado à vida e à obra de Vladimir Nabokov. O museu, aberto ao público, funciona no primeiro andar do prédio e pertence à Universidade Estatal de São Petersburgo. Antes de ir para lá, no meu segundo dia em Peter (como a cidade é carinhosamente conhecida), eu fui dar uma olhada no famoso Palácio de Inverno ou Hermitage, um dos maiores museus do mundo. Para dizer a verdade, eu não estava feliz. Algo tinha desestabilizado o meu dia e eu estava chorando. A raiva e a frustração de estar passando por isso justamente no dia em que iria realizar um dos maiores sonhos da minha vida me fez pensar em desistir, de deixar para outro dia. Eu andava de um lado para o outro, sem me decidir. Mas acabei por caminhar até o meu destino.

A casa dos Nabokov não fica longe do Palácio de Inverno e eu fui caminhando ao longo do Jardim de Alexandr com suas árvores nuas do inverno e repleto de lama das chuvas. Na outra extremidade do Jardim, o grande Cavaleiro de Bronze, símbolo da fundação de São Petersburgo e imortalizado por Pushkin. Em frente à estátua, o Rio Neva congelado. Virando de costas para o rio e indo na direção contrária, a impressionante Catedral de St. Isaac. É atravessando a Praça de St. Isaac e virando à direita que chegamos na rua em que morou Vladimir Nabokov. Ao lado de um pátio com um café muito agradável e uma máquina de fotos em que tirei um conjunto de fotografias minhas, está o prédio rosado com uma placa discreta: “Nesta casa nasceu o escritor Vladimir Vladimirovich Nabokov. 1899 – 1977”. É uma placa como muitas e muitas que se espalham pelas casas e prédios da cidade. Eu precisava parar de tempos em tempos, em minhas andanças infinitas por São Petersburgo, para ler que escritor, artista ou personalidade tinha vivido, ou trabalhado naquele local. Também são comuns placas sobre o cerco de Leningrado, explicando que, naquela localidade, houve um bombardeio ou tiroteio, ou que era ali, numa parte do rio, que os moradores tiravam água para sobreviver. Na mesma parede há uma segunda placa: “Universidade Estatal de St. Petersburgo. Museu Vladimir Nabokov”.

Placa em frente ao museu Nabokov: “Nesta casa nasceu o escritor Vladimir Vladimirovich Nabokov. 1899 – 1977”

Na entrada, há uma senhora que pede nossos dados. Nome. Sobrenome. Cidade. É um museu pequeno. Os cômodos ainda guardam parte da decoração da casa: as luminárias, o papel de parede, a madeira maciça. Todos os museus, pequenos e grandes, eram sempre cheios de russos. Era uma coisa extraordinária como o povo russo parecia sempre dentro dos museus, dos cafés, das livrarias ou nos parques com as crianças em pleno inverno. Ali não foi diferente. Antes mesmo de poder olhar com atenção, eu me abandonei em pranto. Eu tinha sonhado tantas vezes com aquele momento que tudo parecia retirado de um sonho. Um sonho antigo e estranhamente palpável. As luzes amarelas sobre as borboletas e livros dão um ar idílico às salas. Os primeiros livros, as primeiras revistas, objetos da família como um quadro pintado por sua mãe Elena, um Scrabble, jogos de xadrez, fotografias, pianos. Na sala aos fundos, um documentário era exibido de tempos em tempos. O museu abriga não apenas o acervo permanente de Nabokov, mas também exposições temporárias, que costumam conversar com a obra e vida do autor. Quando fui, era uma sobre Alice no País das Maravilhas. De novo, Lewis Carroll no nosso caminho. Na tradução de Alice para o russo, ela se chama Anya. Um livro mostrava, de um lado, a Alice de Carroll e, do outro, a Anya de Nabokov. Lewis Carroll e Vladimir Nabokov através do espelho.

Do lado esquerdo, Alice de Lewis Carroll; no direito, Anya de Vladimir Nabokov.

Não fui uma única vez lá e nem poderia. Queria absorver, fotografar e memorizar todos os detalhes. Estando em São Petersburgo, eu não poderia deixar de visitá-lo mais de uma vez. Na Rússia, é comum essas Casa-museu, normalmente de escritores. Fui a de Pushkin, Dostoievski, Akhmatova e outros.

Ainda na cidade, também visitei a antiga escola Tenichev, onde Nabokov estudou na infância. O antigo prédio é ainda, ao que me parece, o mesmo, mas hoje abriga uma escola e companhia de teatro. Jovens atores saíram do prédio para conversar e fumar sob a luz fraca do inverno, os dedos vermelhos de frio, os rostos sorridentes e falantes. Estava tendo uma obra na rua, o que tornava um pouco difícil circular. Mas ali havia um café vegano, onde pude almoçar uma sopa e uma salada muito saborosas. Os preços em St. Petersburgo, uma cidade mais barata que Moscou, permitiam que eu me alimentasse bem sem grandes preocupações. Comparada à Europa ocidental, a Rússia é muito barata. Eu me dei muito bem com a culinária russa, com seus Pelmeni, Bliní, Borsh, cogumelos, batatas, oreshki, vodka boa e barata, kompot, chás e sucos. Apesar de não ser necessariamente vegetariana, a comida russa sempre tinha opções sem carne para mim e não tive dificuldades nesse sentido. Nos restaurantes populares, que ainda conservam a lógica das antigas cantinas soviéticas, eu pude pedir meus Borsh (sopa de beterraba) sem carne. No meu primeiro dia em Moscou, as russas da cantina se divertiram me apontando todas as opções sem carne e riam tentando arranhar palavras em inglês. Além disso, havia restaurantes veganos bons e com preços ótimos. Eu pude ser feliz gastronomicamente como não pude em outros países europeus, com exceção de Berlim. É interessante frisar que Nabokov também viveu em Berlim, sendo, na realidade, o primeiro ponto nabokoviano em que estive. Muitos de seus livros são ambientados em uma Berlim insípida, desagradável e pré-nazista. Não me detive a falar da cidade porque não fui a nenhum ponto específico de sua vida, que consiste apenas em uma placa no bairro de imigrantes russos, distante do centro da cidade. Quis, ainda, dividir o relato em três partes porque, como boa nabokoviana, dou valor aos números e, para Nabokov, o número três tinha grande importância [mais sobre essa importância em Os Quebra-Cabeças de Vladimir Nabokov].

Além da escola Tenichev, eu fiquei hospedada praticamente ao lado do cinema Avrora, frequentado também por Nabokov, na Nevsky, avenida tão presente na Literatura Russa, onde O Nariz de Gogol caminha, onde os personagens de Dostoievski vivem e onde Akhmatova e Pushkin ambientaram seus poemas. São Petersburgo emana cultura, literatura, teatro, arte no geral. Há cafés, museus, livrarias e monumentos a escritores repletos de flores vermelhas. Seu ar cinza preserva um lamento sempre presente pela morte precoce dos poetas. Placas por todo lado, para não esquecer da morte e da guerra que abalou a antiga Leningrado. Os russos parecem gostar muito de flores. A fila para comprar um buquê na av. Nevsky não se abalava pela neve. As babushkas com panos na cabeça e os corpos tesos de frio. São Petersburgo era um sonho completo, um conto de inverno com os flocos de neve caindo sobre os canais, o Neva congelado e os bêbedos a qualquer hora do dia. À noite, seu número se multiplicava. A Nevsky não era a mesma na madrugada, por onde os casais e os grupos de amigos passeavam e onde pessoas andavam de cavalo, como se presas em um outro tempo. Não existem palavras para descrever a Rússia, sua beleza grandiosa. Eu estava interessada na história, mas principalmente nas pessoas. Observava como elas se moviam, como agiam, como dançavam no frio diante das bandas que se espalhavam pela avenida tocando música toda noite. Os rostos de todo tipo. Os russos são diversos. Tanto que eu era facilmente confundida com uma russa. Em todo lugar, antes que eu dissesse alguma coisa, as pessoas me tinham como conterrânea. Porque os russos não têm uma “cara”, como algumas pessoas podem pensar. Tive oportunidade de conhecer não apenas o centro turístico e rico, mas diferentes pontos da cidade.

Av. Nevsky, São Petersburgo.

É nesse ambiente, tão diferente do de mais de cem anos atrás, mas ainda o mesmo, que Vladimir Nabokov nasce, vive, estuda, passeia, namora e escreve seus primeiros poemas.

Rojdestveno: Um verão que nunca existiu

Na esqueda, o museu de Rojdestveno, antiga propriedade do tio de V.N.; na direita, a estrada do vilarejo que leva ao museu.

Nossa terceira e última parada nessa viagem nabokoviana é pelo interior da região de Leningrado, a cerca de cem quilômetros de São Petersburgo. A jornada começa no caminho do metrô para a estação de trem, cuja viagem até a estação Siverskaia demora mais ou menos uma hora. Depois da viagem de trem, tenho de pegar um ônibus até o povoado de Rojdestveno. Em Siversky, parei para comer um pão com repolho, muito comum na Rússia, e para ver um monumento de guerra, muito comum também. Era por volta de dez da manhã e dois senhores bêbedos caminhavam e conversavam tranquilamente, com suas latas na mão. O Maps não funciona na região e eu não conseguia descobrir onde pegar o ônibus. Resolvi perguntar para uma babushka que estava em um dos pontos e ela me indicou que eu precisava ir até o outro lado da estação. A estrada era de terra empoeirada e o ônibus se camuflava na paisagem de tanta sujeira. Era um micro-ônibus. Apesar de saber um pouco de russo, eu não consigo entender bem os números. Em rublo, quase tudo custa na casa dos cem e dos mil e eu nunca sei identificá-los bem. Cem rublos custam cerca de sete reais, ou menos de dois euros, para se ter uma ideia. Não havia placa, em nenhum lugar, indicando o preço da passagem e eu não consegui entender o valor, apesar de confirmar que aquele era o ônibus certo. Sem saber o que fazer, só abri a mão com minhas moedas para que ele cobrasse o valor da passagem. O ônibus chacoalhava, mas não é nada demais para quem precisa se transportar pelo subúrbio do Rio de Janeiro. Eu estava animada diante daquela aventura e bastante atenta com medo de perder o ponto. Eu sabia o trajeto graças ao museu de Rojdestveno, que faz toda a orientação em seu site. Se não fosse por isso, eu nunca teria conseguido chegar, já que não havia mapasou rotas possíveis na internet. Apesar de estar no interior, pude ver uma escola enorme e moderna na paisagem pacata. Dessa vez, eu era uma figura visivelmente de outro lugar, uma menina da cidade, estrangeira, no interior da Rússia. As pessoas olhavam curiosas. Passamos pelo povoado de Vyra, onde Nabokov aproveitava os verões de sua juventude. Apesar de ter vivido em Vyra, nada sobrou de sua casa depois da Segunda Guerra para contar a história. Rojdestveno, por outro lado, ainda estava de pé. A casa tinha sido herdada por Nabokov de seu tio Ruka, irmão de sua mãe Elena. Apesar de nunca ter vivido ali, é nessa casa que estão guardadas memórias, objetos da família e borboletas do próprio Vladimir. No alto de um monte do pequeno povoado (que consiste em uma rua), um pouco mais adiante de uma igreja ortodoxa e acima de um lago, a casa de Rojdestveno emana os ares dos arredores de Ardis, onde Ada ou Ardor se ambienta. Caminhar pelo jardim da casa era como caminhar pela casa de Ada ou Ardor. O inverno se transformava nos verões em que Nabokov caçava suas borboletas. Eu podia imaginá-lo acordando e correndo para a janela, para ver se estava sol. Se estivesse, o pequeno Valódia pegava sua rede de caçar e se precipitava entre as árvores. É uma paisagem fascinante no inverno e estonteante no verão. Era como caminhar dentro dos próprios livros de Nabokov. O museu é muito barato e interessante, contando, além da história das famílias Nabokov e Rukavishnikov, a história do próprio povoado. Interativo, podíamos trocar peças numa mesa de xadrez e ouvir o próprio Nabokov recitar trechos dos seus livros. Podia-se jogar xadrez com informações de seus livros e mexer em um mapa com o mundo nabokoviano, inventado e reinventado. Toda a casa em si me encantou, com seu aquecedor antigo, aceso manualmente por um funcionário; os adesivos de borboletas no cabideiro de madeira e a cozinha antiga no subsolo. A casa é tão antiga que não tem banheiro, que é instalado do lado de fora. O parque ao redor é muito bonito e me permitiu sonhar com um Nabokov que nunca caminhou por ali, mas sim por Vyra. A sensação engraçada de pisar em terra congelada e o barulho do vento fazendo zumbido nos ouvidos. Esse é o conto de fadas da infância nunca vivida por Vladimir Nabokov.

No parque de Rojdestveno.

Caminhava pelo parque de Rojdestveno como se fosse Ardis. Em pleno inverno como se fosse verão. As folhas se movimentavam como borboletas. Escutava o pequeno Valodia, uma Ada de olhos e cabelos escuros, e eram os sons dos meus próprios passos.



[1] Nabokov, no entanto, não sentia falta dos bens materiais de sua vida na Rússia. Ele disse não ter lamentado essas perdas e se sentia muito incomodado com insinuações nesse sentido (mais a esse respeito em “Fala, Memória”, autobiografia do autor).


Texto publicado originalmente na revista Toró, no Medium.

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