Casulo

Mais um poeta morto, Laura. Mais um corpo suspenso. As palavras interrompidas na traqueia. Um tiro na cabeça, foi assim. Vazio, vazio. Morrer é tão simples. Morrer é tão fácil. Existir é tentar andar com grilhões de cem quilos nos pés. Existir é tão duro. Me encolho como crisálida nos lençóis, pronta para me tornar e retornar à terra. Minhas palavras interrompidas deixo na mesa de cabeceira, criado mudo do silêncio de tudo que tentei dizer, mas nunca disse. Eu existo até aqui muito pouco, como um fiapo de linha que se descostura e nunca encontra retorno. Mas até essa pouca existência pesa, me afunda contra a cama. Laura, cansei de gritar, de me debater contra o peso do mundo. Quero ser grão de poeira que se espalha, livre. Quero ser tão leve quanto brisa de manhã preguiçosa. Quero ser vento fresco no meio da tarde quente. Mas, não é isso que sou, Laura. Eu sou um insustentável de tantas carnes. Minhas entranhas, minhas articulações, meus ossos. Tudo se contrai contra as paredes do ambiente. Tudo que é externo a mim me comprimi nesse espaço que ocupo. Ocupo espaço demais e é por isso que o externo se contrai contra mim, tenta me diminuir até que eu me torne pequenina. Já acreditei que, sendo pequenina, eu pesaria menos contra o mundo. Mas não é verdade, Laura. Torno-me densa, densa. Laura. Só o seu nome me traz conforto, porque você faz parte inteira de algo que não sou eu e que não tenta me contrair. Você é leve como dança. Você é tecido rodopiando no ar ao som de Beethoven. Laura, você é toda inteira leve e, mesmo assim, sua existência é opaca, clara e palpável. Já eu sou todo peso translúcido. Existo tão pouco e sou toda transparência insustentável. Existo em uma violência que rompe as extremidades. Tenho um buraco no miolo de mim que é um sol prestes a explodir. Laura, teu nome flana em minha língua mesmo sendo ásperos os dentes. A saliva grossa consegue ainda sim dizer. Seu nome pode ainda ser dito. Laura, toda vez que te evoco, te ponho no mundo como a uma criança nascida do Nada. Te faço existir sem a fina pele que aprisiona a carne. Laura é livre como a palavra que ainda não foi dita. Você tem sorte, Laura. Preciso ir. Eu me volto para o casulo feito de minha própria grossa pele. Daqui não posso ouvir nem ver para além dessas paredes feitas de mim. Não me lembro de ter olhos nem rosto nem pernas. Estou preparada para deixar de ser.

2 comentários em “Casulo

  1. Gostei do seu texto Luizza, e confesso que ao lê-lo me lembrei do poema “Mundo grande”, de Carlos Drummond de Andrade: “Não, meu coração não é maior que o mundo./ É muito menor./ Nele não cabem nem as minhas dores./ Por isso gosto tanto de me contar./ Por isso me dispo,/ por isso me grito,/ por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos.”. Enfim, não sei se viajei muito durante a leitura, mas fica aqui meus parabéns a você pelo texto!

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