MIRAMAR

Publicado originalmente no Medium

Eu estou sentada na beira de uma praia fria e vazia. O vento agita os mares ou os mares se agitam com a chuva. É uma praia sem tempo. É o lugar do mar. O lugar sem Tempo no vazio branco do mar. O vazio branco do mar e o cinza do céu sem nuvens, sem forma. Um mar vazio de um céu vazio que se entrelaçam na chuva fina sem fim. Vazio e vazio entrelaçados em um beijo longo. As ondas batem nas rochas. Pedras duras, frias. Nessa praia, M.D. toma mais um copo de seu drink favorito. Seu copo é gelado como o vento gelado e a água gelada da praia vazia. M.D. tem ao seu lado o amor incompleto, o amor infeliz. M.D. está com quem não a ama. Nesse lugar do mar — lugar sem Tempo — M.D. está sempre bêbada e cansada. É sempre manhã e há sempre martini. M.D., já perto do fim, se lembra de seu primeiro amor corrompido. M.D. não pisa na areia, a não ser para se despedir do verão de 80, sofrido e infeliz, para se despedir de seu filho — criança em cima da árvore. A mágoa dos amores incompletos, do álcool amargo do sexo que nunca finda, que nunca põe fim ao vazio que o álcool põe fim. É essa mulher, Emily L. Essa mulher jogada nos braços da loucura, da luxúria e do vício, como Hilda, como todas as mulheres-artistas que eu amei (e confesso, eu amei os homes-artistas também). Sempre os ébrios — mas, principalmente, você, M.D. Eu te encontro na praia de pedras — na praia cor vazio. M.D. está no bar e no apartamento e na mesa-martini, mesa-máquinadeescrever. M.D. está longe do tempo, longe dos computadores, e eu não tenho tempo de avisá-la. Nós nunca nos falamos. Ela está no bar-escritório e eu estou na areia. Ela faz filmes e eu faço imagens-filmes que morrerão em minha caneta. Preto no branco. Meus pés buscam se firmar na areia de pedrinhas. Meu corpo está enrijecido de frio. Minhas mãos e meu rosto doem com o vento. A chuva fina e constante e salgada de mar fazem do meu rosto rio de lágrimas. Eu luto para avançar em direção ao mar. As gaivotas tentam alçar voo, mas seus corpos são arremessados para trás como filmados de trás para frente. As gaivotas lutam contra o frio, contra o vento, contra a chuva. Um filete fundo de água cruza a areia. Tento atravessar sem molhar os pés, mas é tarde demais. A água perfura meus pés como centenas de agulhas. O frio atravessa o corpo. Estou encharcada. Todo o meu corpo estremece, frio, molhado, melancólico. Ainda sim sigo em direção ao mar que bate nas pedras de Miramar. Não há Tempo no lugar do mar. O céu e o oceano formam um mesmo cinza-vazio. Mar e céu se abraçam em meio à chuva. Tudo cinza e vazio como a areia branca e vazia. Olho para cada pedrinha, cada marisco. Conheço cada um deles: são meus filhos. Eu os carrego nos braços sob a chuva de Miramar. Eu posso estar na França ou em Paraty ou nos arrozais do Vietnã. M.D. está sentada no mesmo bar. Nós olhamos para o mesmo álbum de fotografias. Nós frequentamos os mesmos quartos sujos, quentes e suados do amor incompleto. Mas nós nunca nos falamos. Nem quando ela se despede de sua criança-menino, nem ali. Só o garçom a conhece. Eu e ele. Ela está com um homem que não a ama. Eles também não se falam. Ele não a conhece. Mas é ele que paga sua conta, dia após dia. Ele já desistiu de fazê-la parar. Ela ficará ali para sempre, o copo de martini na mão. Nós nunca nos falamos. Eu nunca a impedi de beber. Eu atravesso a areia em direção ao mar. Ela está no bar-infinito, do outro lado da praia. Eu atravesso a areia para alcançá-la. São tantas pedras e eu sei que você está ali, que você sempre estará ali no mar sem Tempo, na angústia inebriante da falta de amor. A melancolia estendida na areia de pedras. Eu luto para me aproximar do mar, para atravessar a areia de pedras, para encontrar o mar para além da água salgada que encharca os meus cabelos e os meus olhos e os meus pés. Eu te encontro, Marguerite, na praia vazia. É sempre nessa praia que você estará sentada, um copo na mão. Você sentada. Você com o chapéu de sol em outra praia, outro lugar sem Tempo. É você que habita a praia de Miramar. É lá que um dia percebe a falta de plenitude no amor.

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